Fazendas marinhas no litoral catarinense cultivam uma macroalga que é usada na lavoura, na indústria de cosméticos e em alimentos que podem chegar ao prato dos brasileiros. Introduzida há cinco anos como alternativa de renda para maricultores, a produção da espécie Kappaphycus alvarezii começou a entrar na cadeia de produtos consumidos no país e teve suas possibilidades de uso multiplicadas nesse período.
Santa Catarina é o estado que mais produz a macroalga Kappaphycus alvarezii no Brasil. Em 2024, ela era cultivada por 52 maricultores catarinenses, que produziram mais de 700 toneladas e movimentaram R$ 2 milhões no ano, mas produtores ainda enfrentam dificuldades para ampliar a comercialização da macroalga no país. Além do potencial econômico, pesquisas indicam que a macroalga também traz benefícios ao meio ambiente, com a produção de oxigênio e melhora da qualidade da água.
A introdução da macroalga para o estado surgiu como uma oportunidade de negócio para maricultores catarinenses. A espécie Kappaphycus alvarezii é nativa de países como Indonésia, Malásia e Filipinas, que são os maiores produtores mundiais. Desde 1995, pesquisas da Epagri, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e do Sebrae defendiam a introdução da espécie para Santa Catarina para a produção de biofertilizantes, cosméticos, carragena (utilizada como emulsificante) e para uso gastronômico.
A permissão ambiental para cultivar a espécie exótica foi emitida pelo Governo Federal em 2021, após testes mostrarem que a macroalga não faria mal à flora nativa brasileira desde que monitorada. Desde então, o estado assumiu a liderança na produção está na quinta safra em 2026. No entanto, ao passo que estudos mostram o potencial da espécie Kappaphycus alvarezii para impulsionar a economia e recuperar o meio ambiente, produtores lutam por um mercado que pouco olha para a produção local.
Tradição na maricultura e apoio à pesquisa explicam liderança de SC
A vocação para a maricultura é uma das razões para o estado também ser líder na algicultura (cultivo especializado de algas). Segundo a Epagri, Santa Catarina é responsável por 98% da produção de ostras e mexilhões do Brasil. Felipe Suplicy, pesquisador PhD em aquicultura do Centro de Desenvolvimento em Aquicultura e Pesca da Epagri, explica por que a alga é uma alternativa de mercado para os maricultores.
“A alga tem um ciclo mais curto, de 30 dias em média. É menos trabalhosa que o cultivo de mexilhão e ostra, exige menos mão de obra e manejo. Os equipamentos e a instalação da fazenda são mais baratos. Também não tem problema de maré vermelha, que afeta a produção de ostras e mexilhões. Além disso, a alga não necessita de inspeção de produtos de origem animal.”
Conforme o professor e pesquisador José Bonomi, do Lafic (Laboratório de Ficologia) do departamento de Botânica da UFSC, a combinação de esforços ativos da Epagri e da universidade para estudar o potencial produtivo da Kappaphycus alvarezii também motiva a liderança de SC.
“Santa Catarina tem a combinação de pesquisa, estrutura e tradição em maricultura. Já existia uma cadeia consolidada com ostras e mexilhões. Hoje, a cadeia produtiva em Santa Catarina está vinculada ao uso da alga como biofertilizantes e bioestimulantes”, explica Bonomi.
Tatiana Gama cultiva Kappaphycus alvarezii no Ribeirão da Ilha, em Florianópolis. Proprietária da Algama Fazenda, a produtora decidiu embarcar na produção da macroalga após descobrir as inúmeras possibilidades de mercado. A agricultora usa a alga para a produção da própria linha de cosméticos — shampoo, condicionador, sabonete e hidratante facial e também a vende para produtores de biofertilizantes.
Falta de compradores trava expansão da macroalga em SC
Atualmente na quinta safra, a também presidente da Amasi (Associação de Maricultores do Sul da Ilha) pontua que faltam compradores para a produção catarinense: “O maior gargalo hoje é não ter para quem vender. Falta comercialização. A gente tem capacidade produtiva, técnicas para cultivo, colheita semi-mecanizada. Trouxemos todo o know-how de 35 anos de maricultura no estado para a macroalga.”
Suplicy afirmou que existe um “descompasso” entre oferta e demanda da Kappaphycus alvarezii em Santa Catarina. Atualmente, a empresa de bioestimulantes para agricultura Algas Brasil é a maior compradora das macroalgas produzidas na Grande Florianópolis e fez um acordo com produtores da região para comprar uma determinada quantia da produção de cada um.
Gama é uma das produtoras que participa do acordo e detalha que produz 10 toneladas por mês de Kappaphycus alvarezii na fazenda marinha do Sul da Ilha. Apesar da quantia, a empreendedora explica que tem capacidade para produzir 70 toneladas.
“Estou nesse mercado porque eu ainda acredito na expansão. Então eu programo o que eu preciso plantar naquele mês para eu poder entregar no mês seguinte. Mas a minha capacidade é de muito mais. Com o sistema de cultivo que a gente desenvolveu, eu tripliquei a capacidade da minha área”, reforça a produtora.
Biofertilizantes, a principal janela de negócios
Diante desse cenário, a venda das macroalgas para a produção de biofertilizantes é a principal janela de negócios para os produtores atualmente, defende Filipi Andrade, gestor de agronegócio do Sebrae.
“Um dos principais destinos para grandes volumes da produção da alga, com alto valor agregado, é a fabricação de biofertilizantes agrícolas. O agronegócio é muito forte no Brasil e esse uso dos bioinsumos na agricultura é um mercado que vem crescendo cada vez mais.”
Nesse sentido, o programa Economia Azul do Sebrae realiza testes na produção catarinense para, em outubro, vender a Kappaphycus alvarezii cultivada em SC em uma rodada de negócios para os grandes nomes do mercado de biofertilizantes. Andrade destaca o diferencial da alga produzida em mar catarinense:
“Um dos principais diferenciais é a sustentabilidade, porque ele é um produto nacional produzido com qualidade, com rastreabilidade, através do cultivo e não do extrativismo, então mais sustentável. Quando o produto vem de outro país, tem a dificuldade do transporte. E muitas vezes é um produto diluído, com concentrações de até 30% do extrato puro, enquanto aqui em Santa Catarina temos a matéria-prima extremamente fina, 100% de extrato, sem contaminações externas.”
A oportunidade milionária da carragena
A macroalga Kappaphycus alvarezii também pode ser usada na produção de carragena, um polissacarídeo que serve como emulsificante, espessante e gelificante em alimentos processados. Atualmente, o pó da carragena produzido a partir da alga é importado da China, país que concentra as maiores indústrias do produto.
Sacos industriais de 25 kg da carragena costumam valer até R$ 6,4 mil cada. No entanto, para que produtores brasileiros de macroalga pudessem se beneficiar dessa oportunidade de negócio, seria preciso haver indústrias de polissacarídeo no Brasil. Tanto José Bonomi quanto Felipe Suplicy acreditam que a instalação de uma fábrica desse tipo é o próximo passo para a expansão do mercado da macroalga em Santa Catarina.
“As pesquisas em Kappaphycus começaram com ênfase principal na carragena, que a indústria usa como emulsificante e estabilizante. É possível tirar a carragena da alga e colocá-la em uma série de produtos que fazem parte do nosso dia a dia, são muitos usos diretos e indiretos”, afirma Bonomi.
O uso da carragena é comum na produção de diversos alimentos como alternativa para conferir estrutura, cremosidade e textura. Ela está presente, por exemplo, em bebidas vegetais, como leites de amêndoa e soja; iogurtes, sorvetes e pudins; além de molhos e sopas; assim como carnes processadas.
No entanto, o pesquisador da UFSC pontua que indústrias da carragena precisam vir para o Brasil para que maricultores possam ajustar a demanda de produção. O pó emulsificante precisa de uma grande quantidade de algas para ser produzido, o que exige mais toneladas de Kappaphycus mensais. Ele ressalta que o aumento da capacidade das fazendas marinhas depende de um crescimento na demanda.
“A viabilidade passa por ter uma cadeia produtiva estabelecida. Temos uma cadeia voltada para biofertilizantes e para bioinsumos. Se tivermos mais empresas que têm demanda, é possível incrementar a produção para alimentar essas empresas. Uma coisa puxa a outra”, explica Bonomi.
Projeto transforma Kappaphycus alvarezii em ingrediente para a culinária brasileira
Além de biofertilizantes e da carragena, que produz industrializados, a Kappaphycus alvarezii também pode ir direto para a cozinha. Em parceria com a Epagri, o Núcleo de Pesquisa Aplicada do Hub Senac Gastronomia do Mar estuda os usos gastronômicos da macroalga cultivada em Santa Catarina, com o objetivo de levá-la até o prato dos brasileiros e expandir o mercado.
No Senac, a equipe do Projeto Macroalga é composta pelos professores pesquisadores Renata Tremea, Maria Garcia, Aline Lopes de Moura Salla e Ricardo Luis Barcelos. No laboratório, eles já desenvolveram 28 receitas com a Kappaphycus, que vão desde bebidas, molhos, entradas, pratos principais, sobremesas até panificação.
Tremea exemplificou o papel da macroalga em uma das receitas feitas no Hub. “A alga é um espessante, então fica muito boa em molhos e em cozidos, em algo mais aquoso, porque ela consegue se misturar aos outros ingredientes e deixar um ponto bacana. Por exemplo, nos primeiros testes fiz um molho francês de mariscos que, normalmente, leva quatro gemas para espessar. As substituí pela alga e ficou incrível, não dava nem para perceber que não tinha posto as gemas. Ela foi responsável por espessar o molho”.
Após o desenvolvimento das receitas e pesquisas, o Senac irá entregar todo o material e conhecimento para os algicultores catarinenses. O material deverá ser apresentado ao mercado, como restaurantes e empresas ligadas ao ramo da alimentação.
Alga usada para impressão de comida 3D
Conforme a analista de projetos Francielle Gaertner, responsável pelo Projeto Macroalga, além das receitas tradicionais, a Kappaphycus alvarezii está sendo utilizada para a impressão de comida em 3D no laboratório. A biotinta da macroalga, uma espécie de massa, é usada como matéria-prima da impressora. A descoberta de que a Kappaphycus é o material ideal para a façanha abre ainda mais possibilidades de mercado para a macroalga, explica a analista.
“A alga é perfeita para a bioimpressão, dá uma consistência muito boa na massa. A gente chega rapidamente na textura que precisa ter para imprimir. Não fica nem muito mole nem muito dura, porque ela é um gel, então, à medida que ela vai esfriando, ela vai endurecendo”, explica Gaertner.
A analista explica que, como um todo, a substituição de componentes dos alimentos pela macroalga pode atender públicos com restrições alimentares e defende que a Kappaphycus alvarezii faz parte do futuro da alimentação.
“É uma alga extremamente nutritiva. Para pessoas com disfagia, que têm dificuldade para fazer a deglutição, ela pode ser usada na impressão de alimentos adaptados. Também para crianças autistas que têm dificuldade de comer certos alimentos. Por exemplo: se a criança não come cenoura de jeito nenhum, é possível produzir um snack com base de cenoura combinada a outras farinhas proteicas, com textura e formato ajustados por meio da impressão de alimentos. É uma tecnologia vista como um caminho sem volta.”
“É o futuro, um caminho sem volta.”
Produção de macroalgas ajuda meio ambiente e saneamento
Para além do potencial econômico da macroalga produzida em Santa Catarina, pesquisas também apontam benefícios diretos do cultivo para o meio ambiente. As algas são responsáveis por produzir mais de 50% do oxigênio na Terra, segundo o programa europeu Copernicus e o Inpo (Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas). A produção de oxigênio produzida pela fotossíntese das algas supera, inclusive, a contribuição de florestas terrestres como a Amazônia.
Conforme a Epagri, se todas as áreas aquícolas catarinenses estivessem produzindo Kappaphycus alvarezii, o cultivo poderia absorver cerca de 2.569 toneladas de carbono por ano, volume equivalente ao sequestrado por 2.500 hectares de Mata Atlântica.
Por isso, especialistas discutem a possibilidade da venda de créditos de carbono, um tipo de mercado que ainda não é regulamentado no Brasil e que beneficiaria produtores de macroalga pelo carbono absorvido pelas plantas marinhas. No entanto, o tema é polêmico: se por um lado empresários defendem que o impacto causado pelo cultivo das macroalgas é suficiente para a venda dos créditos, por outro, estudiosos acreditam que a produção nem sempre se enquadra nos critérios de sequestro de carbono de longo prazo— termo chave na discussão.
“Essa questão do sequestro de carbono ainda é um grande debate internacional. Porque sequestrar significa retirar do ambiente por mais de 100 anos. Absorver é uma coisa, sequestrar, outra. Se a alga é transformada num produto que está sendo utilizado na alimentação animal, por exemplo, esse animal que comeu vai respirar e o CO² volta para a natureza. Isso não é sequestro, que é o critério para venda de créditos”, argumenta Suplicy.
Perda de ostras e adaptação climática
Após maricultores de Florianópolis anunciarem que podem perder até 90% da safra de ostras deste ano em função do aumento da temperatura da água do mar, o cultivo de algas aliado ao dos moluscos foi proposto como uma das soluções. Isso porque, produzindo oxigênio, as algas poderiam auxiliar no equilíbrio das condições ambientais das áreas de cultivo. Porém, o pesquisador José Bonomi pondera que, nesse caso, a Kappaphycus alvarezii não pode ser vista como a “salvadora”.santa
“Com um sistema de Aquacultura Multitrófica Integrada, que combina espécies que se aproveitam umas das outras para se desenvolver, é possível pensar nas algas para que elas auxiliem no processo de cultivo de outros organismos, mas eu não diria que o cultivo de algas seja capaz, por si só, de fazer a temperatura da água subir ou baixar. É muito difícil você pensar em um organismo que vai ser, sozinho, o controlador de um fator.”
Em contrapartida, algicultores podem pleitear receber o PSA (Pagamento por Serviços Ambientais), um mecanismo financeiro que remunera produtores rurais por ações que preservam ou recuperam recursos naturais, como água, solo e biodiversidade. Isso porque, além de absorverem carbono, a Kappaphycus alvarezii também absorve elementos como nitrogênio e fósforo da água, o que ajuda a purificar a água e diminui a poluição dos mares.
“A alga absorve um monte de nitrogênio e fósforo que foi lançado por outras atividades humanas. Fertilizantes, detergente, desodorante doméstico, tudo isso lança nitrogênio e fósforo no mar, na baía de Florianópolis. Quando colhemos algas e moluscos estamos tirando toneladas de nitrogênio e fósforo que não vão voltar para o mar”, exemplifica Suplicy.
Pesquisa é aposta para destravar mercado da macroalga em SC
Diante das inúmeras alternativas com a Kappaphycus, Suplicy ressalta os esforços feitos para se produzir pesquisas que justifiquem a compra do produto nacional e resolvam, assim, o gargalo mercadológico.
“A gente tem um grande quadro em branco à nossa frente. Tem tudo por ser feito nesse setor que tá começando. A Epagri trabalha na elaboração de um Plano Estratégico para o Desenvolvimento Sustentável da Algicultura Catarinense para a década de 2027 a 2037. Esse plano está sendo elaborado seguindo as melhores recomendações das Nações Unidas, utilizando uma abordagem ecossistêmica que vai analisar o assunto sob o prisma social, econômico e ambiental.”
Da sua fazenda no Ribeirão da Ilha, Tatiana Gama representa os algicultores que aguardam a conclusão das pesquisas relacionadas à Kappaphycus alvarezii para começar a obter um retorno econômico mais efetivo com a macroalga. Segundo ela, os resultados desse conhecimento, produzido por entidades como a Epagri, a UFSC, o Sebrae e o Senac, devem permitir que o mercado compreenda melhor o potencial da macroalga, apontem novos usos para o produto e incentivem a ampliação da comercialização no país.
“Esse tipo de pesquisa é caro para o produtor, que também não sabe os caminhos. Falta isso para gente conseguir abrir mercados e fazer com que empresas nacionais ou até internacionais comprem daqui. Esse tipo de estudo é necessário para ampliar a comercialização e abrir novos mercados. Se como estamos hoje já somos os maiores produtores do Brasil, imagina se expandir esse mercado? Capacidade técnica para produzir a gente tem.”
Fonte: ND MAIS
Foto: Epagri/Divulgação/ND Mais

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